Educação domiciliar 2021

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Mais conhecido como homeschooling. Essa ideia tomou força nos últimos anos
como a grande revolução da educação básica.

Na teoria, os pais iriam ensinar
tudo para os filhos: português, matemática, História, Geografia…, mas
perceberam que não tem como os pais explicarem TUDO para seus filhos.
Então, eles contratariam professores para lecionarem para seus filhos em casa.
E quanto estão dispostos a pagar por essas aulas?
Então, na teoria, seria isso.
Familiares ensinam, professores contratados ensinam e isso seria a revolução
educacional para que as crianças (parte delas) não precisem ir à escola.

Mas aí veio a pandemia…

A pandemia, em relação a educação, deu todos os atributos para que o ensino
domiciliar pudesse ser posto em prática. Afinal, foi praticamente um ano letivo
sem que os alunos fossem a escola e assim tiveram que estudar de forma
remota.

Ainda que o sistema remoto não seja regularizado na educação básica,
esse foi a forma encontrada, segundo alguns mais eficaz, para manter os
alunos em contato com o estudo e a escola.

Ou pelo menos foi o que as pessoas esperavam, já que muitos alunos e familiares não têm aparelhos
eletrônicos, internet com velocidade compatível para streaming e paciência
para ficarem 5 ou 6 horas olhando para a tela de um computador e assistindo
uma aula remota. E até aqui menciono os que defendem que os alunos devam
ir para a escola. Os apoiadores do ensino domiciliar ainda não apareceram
para o debate…

Ensino domiciliar: o debate

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Embora os responsáveis imaginem que a escola é a única ou maior
responsável pela educação dos jovens e adolescentes, não significa que não
tem “tarefa de casa”.

Os responsáveis não podem se isentar da participação e
interação no processo educacional dos seus tutelados. Inclusive, há muitas
pesquisas que mostram que quanto mais os responsáveis são presentes na
vida do estudante, melhor é a qualidade do aprendizado por parte desses
jovens.

Escola não é uma região deslocada do resto do mundo. É preciso interação
entre toda a comunidade escolar. E quem faz parte da comunidade escolar?
TODOS!

Em pleno século XXI achar que a educação se faz com uma pessoa sentada,
olhando para um quadro, anotando tudo que aparece escrito nesse quadro e só
ouvindo o que uma pessoa em pé (ou sentado) está falando é a forma mais
adequada de educação, deveria repensar um pouco seus conceitos sobre em
que século está vivendo.

Só para dilatarmos nossas compreensões. Crianças                                                                                                                      de 1 ano tem como entretenimento tablets e internet. E mais de 50% das
crianças com 12 anos têm aparelhos telefônicos. Essas pessoas sabem usar
seus celulares para jogar e entrar na internet, por exemplo.
Então temos que refletir: Ficar sentado ouvindo alguém por 5 ou 6 horas é a
melhor forma de ensinar?

Em relação ao ensino domiciliar, quantas horas por dia você, que não é
professora ou professor, não fez nenhuma graduação, pretende dedicar para
preparar um plano de aula para depois lecionar? A qualidade educacional será
a mesma de um professor ou professora? Ou vocês acham que os professores
simplesmente chegam na escola e tiram toda aula da mochila e colocam no
quadro e toda a mágica é feita?

Um outro recorte social
As condições do ensino domiciliar

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Pretendo trazer aqui uma reflexão pouco explorada nesse debate. Quem
trabalha 12 ou 16 horas contraria professores para lecionarem em suas
residências? Talvez sim, porque o dia só tem 24 horas.

Sejamos francos! Se essa modalidade fosse (ou for) sancionada, você acha
que o gasto com educação, principalmente publica, permaneceria o mesmo,
aumentaria ou diminuiria?

Quanto você pode pagar para um professor
particular, tendo em vista que 1 hora-aula do ensino básico é em média 70
reais. Você pode até encontrar mais barato, mas teria como arcar com essa
despesa 5 horas por dia, 5dias na semana?

Só para ajudar a preparar uma aula de matemática. Vamos supor que o custo
da hora-aula é de 30 reais (menos que isso ou é caridade ou é escravidão).
Então, em um dia seriam gastos 150 reais. Em uma semana seriam gastos 750
reais (5 dias).

E em um mês, de 4 semanas, seriam gastos 3 mil reais. E se
você não tiver 3 mil reais, pelo menos, por mês, você mesmo pode lecionar.
Mas que horas você daria aula?

Além da questão de matemática, a escola não é apenas um lugar para
“aprender” coisas novas. É um espaço de socialização onde o jovem começa a
ter contato com pessoas que não são seus familiares.

Aprendem (ou deveriam)
a lidar com situações novas, a compreender e respeitar o que se apresenta de
diferente, a observar os problemas por ângulos novos e diferentes e a formar
seu caráter cidadão. Sim.

Porque, mais uma vez, a escola é uma grande
influenciadora na sociedade. A escola deveria estar em casa e a casa deveria
estar na escola. Ou poderíamos dizer: a comunidade escolar deveria estar em
casa e as pessoas de casa deveriam estar na escola.

No âmbito educacional brasileiro, ainda convivemos com problemas do século
19 e pensamos (lecionamos) como século 17. Defender o ensino domiciliar,
sabendo que muitos jovens vão a escola por causa da merenda, por exemplo,
é não entender a complexidade de um país tão diverso. Por que não exigir
melhorias nas escolas ao invés de defender a bandeira de educar os jovens em
casa, sabendo que a realidade da grande maioria brasileira é nem ter uma
casa?
A educação é um direito constitucional. Diz lá no artigo 205:
“A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e
incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno
desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho”.

É direito de todos terem educação (de qualidade) e dever do estado e da
família fazer com que isso aconteça. Defender a educação domiciliar, nos
moldes brasileiros é fazer com que a maioria dos brasileiros não consigam se
qualificar para o exercício da cidadania, como diz a constituição. E assim, é dar
muitos passos a caminho dos séculos passados e se distanciar do século atual.

 

Marcelo Bomfim

Professor de Física, Ativista e Colaborador do nosso site

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